13 de julho de 2009

A verdade do amor segundo Pepetela

"Estou a arriscar muito, portanto, tentando contar a minha estória de amor. Passamos a vida a tentar descobrir, alguns vivem mesmo só para o encontrar. Já sem falar nos escritores, que fizeram dele o tema inesgotável para poemas e romances. Uns tantos apenas no fim da vida percebem nunca com ele terem cruzado, para além dos inevitáveis equívocos. Outros, pelo contrário, descrentes de tudo desde a mais tenra idade, se surpreendem no leito de morte a sonhar com uma menina que afinal preencheu as suas vidas. Na maior parte dos casos, leva-se a verdade para a tumba. Se verdade houver.
Que há de verdade no amor?
A mesma verdade que existe na verdade. Se consome pelo uso. Ou se reforça pela ausência. Ou nem uma coisa nem outra. O mistério permanece e nos espanta sempre.
Para quê então falar no que não se pode perceber?"

Pepetela, em "O Planalto e a Estepe"

10 de julho de 2009

Despedida da flor


"- Adeus, disse à flor.
Mas ela não lhe respondeu.
-Adeus, repetiu.
A flor tossiu. Mas não era por causa da constipação.
- Fui uma tola, disse-lhe por fim. Perdoa-me e procura ser feliz.
Surpreendeu-o a ausência de censuras. Permanecia ali, todo confuso, com o globo na mão. Não compreendia aquela suavidade calma.
- É certo, amo-te, disse-lhe a flor. Por minha culpa, não soubeste de nada. Isso não tem importância alguma. Mas tu foste tão tolo como eu. Procura ser feliz... Pousa essa redoma. Já não a quero.
- Mas o vento...
- Não estou constipada como isso... O ar fresco da noite vai fazer-me bem... Sou uma flor.
- Mas as feras...
- Se tiver de suportar duas ou três lagartas, para chegar a conhecer as borboletas, não faz mal. Dizem que é tão bonito. Senão, quem me há-de visitar? Estarás longe, tu. Das feras maiores não tenho medo nenhum. Tenho as minhas garras.
E mostrava ingènuamente os quatro espinhos. Depois acrescentou:
- Não te demores mais, é irritante. Decidiste partir. Vai-te embora.
É que não queria que ele a visse chorar. Era uma flor tão orgulhosa..."

Antoine de Saint-Exupéry, em "O Principezinho" (4ª edição, tradução de Alice Gomes)

9 de julho de 2009

You Are My Sister - Antony e Boy George

Dedicado às minhas irmãs:

«You are my sister, we were born 
So innocent, so full of need 
There were times we were friends but times I was so cruel 
Each night I'd ask for you to watch me as I sleep 
I was so afraid of the night 
You seemed to move through the places that I feared 
You lived inside my world so softly 
Protected only by the kindness of your nature 
You are my sister 
And I love you 
May all of your dreams come true 
We felt so differently then 
So similar over the years 
The way we laugh the way we experience pain 
So many memories 
But theres nothing left to gain from remembering 
Faces and worlds that no one else will ever know 
You are my sister 
And I love you 
May all of your dreams come true 
I want this for you 
They're gonna come true (gonna come true)»  (daqui)

7 de julho de 2009

Cartas de amor ridículas - Fernando Pessoa


"Todas as cartas de amor são

Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)"

Álvaro de Campos, 21-10-1935