Raul Solnado deixou-nos hoje. A essa grande figura do teatro e da comédia portugueses, deixo aqui uma pequena homenagem. Gostaria de colocar aqui "A Guerra de 1908" com a gravação ao vivo, mas só encontrei com a voz. Muito me ri com essa cena, há quantos anos...
8 de agosto de 2009
6 de agosto de 2009
Um lugar
Aquele lugar, aquele cheiro a terra misturada com vegetação, os pinheiros, os eucaliptos das bouças a sul, o ar transparente, e o carvalho, o carvalho em frente à casa; sinal de localização para quem não conhecia o caminho, o enorme carvalho via-se de longe. Foi plantado por meu avô no dia em que meu pai nasceu. Quando o meu pai morreu, o carvalho tornou-se para mim o símbolo vivo do meu pai. A casa pertence a uma pequena quinta, que antes de ser nossa, foi do meu pai, do meu avô, do meu bisavô, etc.. A quinta é fértil e bonita, cheia de sol e de verde, atravessada por uma ribeira e situada numa zona de vale. Desvarios foram aquelas reformas agrícolas que obrigaram a arrancar as videiras das ramadas sobre os caminhos que tornavam os seus percursos em verdadeiros momentos de prazer.A casa, essa, feita com paredes mestras de pedra, e ainda com algumas paredes interiores de estuque, tem uma planta em forma algo invulgar em forma de P. Não é muito confortável nem funcional. Não foi feita de uma só vez, mas foi crescendo com sucessivos aumentos, à medida das necessidades das grandes famílias antigas. É uma casa rural, com algumas partes típicas, como o sequeiro, as adegas, o lagar, as eiras, e até um pombal; outras partes são o resultado de modificações posteriores, adaptando a casa a novas circunstâncias. Com tudo isto, a casa conta uma história de uma família ao longo de gerações, é só perceber a linguagem, para o que basta conhecer o modo de vida rural minhoto deste século em vias de extinção.
Algo me liga lá, seja lá o que for; sejam os tempos que lá passei, correndo pelos campos ou esfolando os joelhos de triciclo e bicicleta com os tombos naquela solarenga eira; os jogos de escondidas e os jogos de cartas com os amigos em que o meu pai também participava; ou os fins de tarde em amena cavaqueira passados no eirado, pequena eira junto ao lagar. O eirado era um dos meus lugares preferidos: rodeado de casa por todos os lados, coberto com ramada de uvas americanas, para ele se viravam as portas das frescas adegas e das outrora cortes dos bovinos residentes no rés-do-chão. No fundo, o que me ficou mais marcado foi o espaço exterior. Talvez aquele lugar seja a representação presente de outra época, uma espécie de dimensão temporal do espaço.
Não foi projectada por arquitectos. Não foi planeada com estudos teóricos. Mas ninguém lhe tira as tardes de Verão em que se faziam as malhadas ou as desfolhadas, eram tempos de trabalho duro e saudável convívio; e lembro-me vagamente de passar a tarde a fazer pequenos ramos de flores para, ao jantar, distribuir aos trabalhadores vizinhos que se juntavam e ajudavam, muitas vezes pelo sentido de comunidade, cuja paga talvez fosse apenas aquele alegre jantar.
São as memórias e sensações que tenho e que tive ligadas a um lugar, a um bocado de espaço que vivi e que vivo. E tal como uma árvore, a ele me sinto agarrada com fortes raízes invisíveis.
Talvez um dia seja possível recuperar esse canto perdido no Minho, bem perto de nós, sem ter de desenraizar as árvores.
Junho de 1999
5 de agosto de 2009
Nothing Compares 2 U - Sinéad O'Connor
4 de agosto de 2009
A gente morre às vezes
"Viver tem dessas coisas: de vez em quando se fica a zero. E tudo isso é por enquanto. Enquanto se vive.
(...)São cinco para as sete. Se me descuido, morro. É muito fácil. É uma questão do relógio parar. Faltam três minutos para as sete. Ligo ou não ligo a televisão? Mas é que é tão chato ver televisão sozinha.
Mas finalmente resolvi e vou ligar a televisão. A gente morre às vezes."
Mas finalmente resolvi e vou ligar a televisão. A gente morre às vezes."
Clarice Lispector, em "Por Enquanto", Conto
3 de agosto de 2009
Venham Mais Cinco - Zeca Afonso
Ontem completaram-se 80 anos desde que nasceu Zeca Afonso.
Para reavivar a memória, um extracto do seu último concerto, no Coliseu, em 1983.
Para reavivar a memória, um extracto do seu último concerto, no Coliseu, em 1983.
1 de agosto de 2009
31 de julho de 2009
No mar
21 de julho de 2009
Voodoo Girl
20 de julho de 2009
Avó
"Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer." Assim mesmo. Eu estava lá."
José Saramago, em "As Pequenas Memórias"
José Saramago, em "As Pequenas Memórias"
19 de julho de 2009
Houvesse muitos assim
Na revista Única incluída no semanário Expresso, de ontem, a rubrica Perfil apresenta um artigo intitulado "A torto e a direito" sobre o bastonário da ordem dos advogados, Marinho Pinto. Algumas das suas frases, são um testemunho da sua lucidez na análise da realidade deste Portugal:
- "A distribuição da riqueza é mal feita e acentuou desigualdades que lembram alguns dos piores momentos da nossa História. Os partidos políticos deixaram de ter um papel de moderação e mobilização e funcionam mais como sindicatos ou aparelhos que lutam por votos para receber os subsídios do Estado, o que descredibiliza o discurso político e as instituições democráticas."
- "Vive-se na espuma mediática criada pelos próprios jornalistas, que já não orientam a sua actividade por critérios de natureza ética e deontológica."
- "A aplicação mecânica da lei leva às piores injustiças. A lei é apenas uma de várias fontes de Direito". "Quando escolhi ser advogado, estava cheio de ilusões e ideais sobre a justiça. Perdi todas as ilusões, mas nenhum dos ideais."
Muito se fala, muito se diz, muito se ataca Marinho Pinto. É certo que ele dispara para muitos lados. Mas não a torto e a direito. À parte generalizações, bem sabemos que há muito de podre no funcionamento das instituições neste país.
Por isso, não tenho como não gostar e não aplaudir a coragem de Marinho Pinto .
- "A distribuição da riqueza é mal feita e acentuou desigualdades que lembram alguns dos piores momentos da nossa História. Os partidos políticos deixaram de ter um papel de moderação e mobilização e funcionam mais como sindicatos ou aparelhos que lutam por votos para receber os subsídios do Estado, o que descredibiliza o discurso político e as instituições democráticas."
- "Vive-se na espuma mediática criada pelos próprios jornalistas, que já não orientam a sua actividade por critérios de natureza ética e deontológica."
- "A aplicação mecânica da lei leva às piores injustiças. A lei é apenas uma de várias fontes de Direito". "Quando escolhi ser advogado, estava cheio de ilusões e ideais sobre a justiça. Perdi todas as ilusões, mas nenhum dos ideais."
Muito se fala, muito se diz, muito se ataca Marinho Pinto. É certo que ele dispara para muitos lados. Mas não a torto e a direito. À parte generalizações, bem sabemos que há muito de podre no funcionamento das instituições neste país.
Por isso, não tenho como não gostar e não aplaudir a coragem de Marinho Pinto .
Tradições inaceitáveis
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