15 de março de 2015

O Tejo e o rio da minha aldeia

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."

Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos - Poema XX"

14 de dezembro de 2014

29 de dezembro de 2013

Receita de Ano Novo

«Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 

Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.»

Carlos Drummond de Andrade

ANDRADE, C. D. Receita de Ano Novo. Editora Record. 2008.

28 de outubro de 2013

Passar a limpo a Matéria

"Sempre juntos", Vladimir Kush (daqui)
Passar a limpo a Matéria
Repor no seu lugar as cousas que os homens desarrumaram
Por não perceberem para que serviam
Endireitar, como uma boa dona de casa da Realidade,
As cortinas nas janelas da Sensação
E os capachos às portas da Percepção
Varrer os quartos da observação
E limpar o pó das ideias simples...
Eis a minha vida, verso a verso.

17/09/1914

Alberto Caeiro 
(em "Fernando Pessoa, Poemas escolhidos de Alberto Caeiro", Assírio & Alvim, 2013)

Imagem: "Sempre juntos" de Vladimir Kush 


16 de setembro de 2012

Crescimento (por Leunig)


"Cada um terá de viver criativamente - criatividade significa que, apesar de você perder o que esperava ter, você encontrará algo melhor e então você irá crescer"  Michael Leunig

Fonte (do cartoon de Michael Leunig e da frase): abc.net.au.

18 de julho de 2012

Abandonado

    "Escrito num livro abandonado em viagem
         Venho dos lados de Beja.
         Vou para o meio de Lisboa.
         Não trago nada e não acharei nada.
         Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
         E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
         Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
         Fui, como ervas, e não me arrancaram."

Álvaro de Campos (Março 1928), em "II Poesias de Álvaro de Campos", Obras Completas de Fernando Pessoa, Edições Ática, 1991
Fotografia de RUIN'ARTE

Tão abandonado está a ficar este armazém, que completou 3 anos há duas semanas, e nem me lembrei. O tempo não tem chegado para cuidar dele! Mesmo assim, um grande OBRIGADA a todos os que ainda o visitam.