25 de julho de 2011

Há um tempo, todo o tempo, nenhum tempo

Porque há um tempo para rir, um tempo para chorar, um tempo para reflectir, um tempo para construir... porque todo o tempo devia ser tempo de amor, amizade e partilha... e porque nenhum tempo devia ser tempo de ódio ou de guerra... partilho novamente esta música, de que tanto gosto!

4 de julho de 2011

2º aniversário - Mas há a vida

Tão pouco tempo tenho tido disponível para ir alimentando este Armazém, ou mesmo para visitar outros armazéns que tanto merecem o meu carinho, que quase me esquecia que este é o dia do 2º aniversário deste blogue.

Mas há a vida, e há o sol!

"Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata."

Clarice Lispector (fonte: Jornal de Poesia)


Música: Hino ao Sol, de Marcus Viana

13 de junho de 2011

Viver é ser outro

"Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir  - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção - isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.

Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

Altos montes da cidade! Grandes arquitecturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações  - sois hoje, sois eu, porque vos vejo sois o que amanhece e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas na passagem."

Bernardo Soares / Fernando Pessoa, em "Livro do Desassossego", 18-5-1930

1 de maio de 2011

Conselhos desperdiçados

Da autoria de Mary Schmidt, no Chicago Tribune de 1 de Junho de 1997, o texto "Advice, like youth, probably just wasted on the young" correu mundo em e-mail com o título "Wear Sunscreen" e resultou nesse vídeo (versão narrada em português por Pedro Bial aqui), entre outros:

25 de abril de 2011

Abril

"Conto-te resumidamente o que aconteceu em Abril:
Colhias flores, mas apesar de tudo senti que o medo
te ceifava os dedos tingidos de pétalas.
Ouviam-se ao longe os passos de guerra na calçada,
as pedras dos monumentos oscilavam,
as estátuas tremiam de frio,
as aves não sabiam o que eram asas
e afogavam-se no grande rio.
As janelas tinham rostos colados, cinzentos.
Quiseste fugir para longe quando te falei de amor.
Mas eis que do céu cai toda a água do mundo.
Disse-te: não tenhas medo, é Abril;
as medonhas gárgulas apenas vomitam águas da chuva.
E tu sorriste e tu sorriste, e com o teu sorriso
estendeste-me um poema vermelho."

Paulo Assim

24 de abril de 2011

Havia Séculos

Imagem da NASA
"Havia séculos
e eram florestas sobre florestas escritas.
O canto cantava: era o incêndio do vento

folheando a memória da terra

essa maranha de raízes aéreas que nasciam enterrando
mais fundo as árvores anteriores;
essa teia nocturna de troncos e lianas, de ramos e folhas,
nervuras que os versos enervam irrespiráveis;
esse mapa em relevo lavrado pela paciência da luz
que atrasando-se recorta
estas estranhas esculturas do tempo:
os poemas selvagens

o máximo excesso de uma rosa aquática e frágil
sempre a nascer desfiladeiros
e falésias, fendas, quebradas, ravinas
vulcões que deflagram em écrans sucessivos

Havia séculos
e o cinema dos astros
acendia ampolas e bagas, campânulas, cápsulas, lâmpadas;
punha em música a infinita noite dos versos que longamente
escutam
aqueles que muito antes ou muito depois vieram ou virão
até estes anfiteatros que os desertos invadem.

Havia séculos
e
atravessando as ruínas dessa terra quente, as páginas
de água dessa rosa alucinada
havia esse:
o comum de nós que dos seus se dividindo, verso
a verso, procura ainda alguém. E assim
era de novo o início.

A grande migração das imagens — havia séculos —
desde há muito começara, desde sempre, já.
E sem cessar migrávamos nós, inquietos e perdidos

sem paz e sem lei, sem amos nem destino."

Manuel Gusmão, em  Migrações do Fogo, Editorial Caminho, Lisboa, 2004, obtido daqui

O poeta e ensaísta  Manuel Gusmão venceu o Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho, criado pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, pela obra Tatuagem Palimpsesto.  O prémio é entregue no dia 29 de Abril em Vila Nova de Famalicão.

8 de abril de 2011

Íssimo cansaço...

Edvard Munch, Night in Saint Cloud

"O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossìvelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos



Música: Evanescence, Listen to the Rain

26 de março de 2011

"Sou do tamanho do que vejo!”

«Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho da sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade…


Porque eu sou do tamanho do que vejo
e não do tamanho da minha altura.


Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.
“Sou do tamanho do que vejo!” Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do tamanho do que vejo!” Que grande posse mental Vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele, e, assim, em certo modo, ali estão.

E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. “Sou do tamanho do que vejo!” E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.

Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade largal aos grandes espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando. “Sou do tamanho do que vejo!” E a frase fica-me sendo a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.
»

Bernardo Soares / Fernando Pessoa, em "Livro do Desassossego", 24-03-1930