30 de abril de 2022

Que a violência acabe

 «Que a violência acabe Que as armas perto de nós matando se calem finalmente

Tanto sangue tingiu as nossas ruas E que valeu o sangue?

Porém em nosso nome Nós querendo Nós ansiando a paz dos vizinhos bons negócios se fazem

Exportamos armas para longe

Os melhores carros de combate do mercado Relação preço qualidade

Ilustração de José Maria de França Machado, no livro referido
A maior venda de armas na história deste povo que apenas quer a paz

No céu muito azul não há sangue vermelho
Na terra cor de trigo maduro
só na próxima primavera as papoilas surgirão

Da cor do sangue

A terra que absorve o sangue A terra que filtra o sangue

A terra onde os vivos e os mortos um só corpo são

Terra aonde regressam os violentos Terra aonde tombam
Aqueles que abrem o peito aos violentos
»

Cáceres, 23-25 outubro 2010
José Carlos Costa Marques, em "Uma Voz Entre Vozes", Edições Afrontamento, Maio de 2018

1 de fevereiro de 2020

Amar

«AMAR
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.»

Carlos Drummond de Andrade

20 de janeiro de 2020

É tarde

«É tarde
nenhum sono
repõe o que não vivi

agora
resta um único desfecho:
de novo acordar por dentro

e acordar sempre
até que volte a ser cedo.»

Mia Couto



Fonte: Facebook de Mia Couto

2 de janeiro de 2018

Tenho pena e não respondo

«Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros — cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?»

Fernando Pessoa
26-8-1930

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 50.


Apolo, de Nadir Afonso (acrílico sobre tela, 2007),
fotografia captada no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, em Chaves,
dez 2017

12 de dezembro de 2017

Quando o amor chega

«Sarah Kay e Phil Kaye do Projeto VOICE interpretam "When Love Arrives", um poema da sua autoria sobre as expectativas e as realidades do amor. Este poema fez parte de sua atuação no Malthouse Theatre em Melbourne, Austrália, organizado pela revista Dumbo Feather (2012), e o vídeo original já teve mais de 3,8 milhões de visualizações.

Projeto VOICE (Vocal Outreach Into Creative Expression) é um movimento que celebra e inspira a auto-expressão dos jovens através da poesia falada. Concebido em 2004, este projeto encoraja os jovens a envolverem-se com o mundo ao seu redor e usam a poesia falada como um instrumento através do qual elas possam explorar e compreender melhor sua cultura, sua sociedade e, finalmente, elas mesmas. »
Fonte: tradução do texto do vídeo original

Com os agradecimentos e os parabéns à amiga Ana Isabel Ferreira, que me deu esta linda prenda no seu dia de aniversário, que tive de partilhar :)

26 de março de 2017

E há poetas que são artistas


«E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...

Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre boa e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa.
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos,
E não termos sonhos no nosso sono.»

Alberto Caeiro , O Guardador de Rebanhos, XXXVI, em "Fernando Pessoa, Poemas escolhidos de Alberto Caeiro", Assírio & Alvim, edição 2013

25 de março de 2017

26 de setembro de 2016

Quando voltar a Primavera

"Quando vier a Primavera", de Alberto Caeiro, é um daqueles poemas que, simplesmente, adoro, pela genialidade, desprendimento, simplicidade e amor à natureza!   Aqui, muito bem dito, por Pedro Lamares. Apreciem!

17 de agosto de 2016

A Poesia é uma Arma Carregada de Futuro

A POESIA É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO
GABRIEL CELAYA (1911-1991)

Biblioteca em Móron, Cuba, 2016
«Quando já nada se espera particularmente exaltante
mas palpitamos e seguimos aquém da consciência,
feramente existindo, cegamente afirmando,
como um pulso que golpeia as trevas,

quando miramos de frente
os vertiginosos olhos claros da morte,
dizemos as verdades;
as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades

Dizemos os poemas
que enchem os pulmões dos que, asfixiados,
pedem ser, pedem ritmo,
pedem lei para aquilo que sentem em excesso,

com a velocidade do instinto,
com o raio do prodígio,
como mágica evidência, o real que se transforma
no idêntico a si mesmo.

Poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que exigimos treze vezes por minuto,
para ser e enquanto somos dar o sim que glorifica.

Porque vivemos aos tropeços, porque apenas nos deixam
dizer que somos quem somos,
os cânticos não podem ser, sem pecado, um adorno.
Estamos chegando ao fundo.

Maldita a poesia concebida como um luxo
cultural para os neutros
que, lavando-se as mãos, se desentendem e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.

Faço minhas as faltas. Sinto em mim os que sofrem
e canto respirando.
Canto, e canto e cantando para lá de minhas penas,
me amplio.
Gabriel Celaya, foto de http://www.gabrielcelaya.com/

Quisera dar-lhes vida, provocar novos atos,
e calculo por isso com a técnica que posso.
Me sinto um engenheiro do verso e um operário
que forja com outros a Espanha em seus alicerces.
Assim é minha poesia: poesia-ferramenta
ao mesmo tempo pulsar do unânime e cego.
Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que aponto o teu peito.

Não é uma poesia gota a gota pensada.
Não é um belo produto. Não é um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que expande o que dentro levamos.

São palavras que repetimos sentindo
como nossas, e voam. São mais que o pensado.
São gritos no céu, e, na terra, são atos.»

Gabriel  Celaya, 1955, Cantos Iberos
(tradução de António Miranda)

Fonte e versão original em espanhol:  http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/espanha/gabriel_celaya.html



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