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18 de julho de 2012

Abandonado

    "Escrito num livro abandonado em viagem
         Venho dos lados de Beja.
         Vou para o meio de Lisboa.
         Não trago nada e não acharei nada.
         Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
         E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
         Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
         Fui, como ervas, e não me arrancaram."

Álvaro de Campos (Março 1928), em "II Poesias de Álvaro de Campos", Obras Completas de Fernando Pessoa, Edições Ática, 1991
Fotografia de RUIN'ARTE

Tão abandonado está a ficar este armazém, que completou 3 anos há duas semanas, e nem me lembrei. O tempo não tem chegado para cuidar dele! Mesmo assim, um grande OBRIGADA a todos os que ainda o visitam.



8 de abril de 2011

Íssimo cansaço...

Edvard Munch, Night in Saint Cloud

"O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossìvelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos



Música: Evanescence, Listen to the Rain

2 de dezembro de 2010

Os antigos

"Os antigos invocavam as Musas.
Nós invocamo-nos a nós mesmos.
Não sei se as Musas apareciam —
Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação. —
Mas sei que nós não aparecemos.
Quantas vezes me tenho debruçado
Sobre o poço que me suponho
E balido «Ah!» para ouvir um eco,
E não tenho ouvido mais que o visto —
O vago alvor escuro com que a água resplandece
Lá na inutilidade do fundo...
Nenhum eco para mim...
Só vagamente uma cara,
Que deve ser a minha, por não poder ser de outro.
É uma coisa quase invisível,
Excepto como luminosamente vejo
Lá no fundo...
No silêncio e na luz falsa do fundo...

Que Musa!........."

Álvaro de Campos, 3/1//1935