4 de junho de 2010
31 de maio de 2010
Está visto que a guerra é um negócio
"Está visto que a guerra é um negócio de primeira ordem, talvez seja mesmo o melhor de todos a julgar pela facilidade com que se adquirem do pé para a mão milhares e milhares de bois, ovelhas, burros e mulheres solteiras, a este senhor terá de chamar-se um dia deus dos exércitos, não lhe vejo outra utilidade, pensou caim, e não se enganava. É bem possível que o pacto de aliança que alguns afirmam existir entre deus e os homens não tenha mais que dois artigos, a saber, tu serves-nos a nós, vocês servem-me a mim. Do que não há dúvida é que as coisas estão muito mudadas. Antigamente o senhor aparecia à gente em pessoa, por assim dizer em carne e osso, via-se que sentia mesmo certa satisfação em exibir-se ao mundo, que o digam adão e eva, que da sua presença se beneficiaram, que o diga também caim, embora em má ocasião, pois as circunstâncias, referimo-nos, claro está, ao assassínio de abel, não eram as mais adequadas para especiais demonstrações de contentamento. Agora, o senhor esconde-se em colunas de fumo, como se não quisesse que o vissem. Em nossa opinião de simples observadores dos acontecimentos, andará envergonhado por algumas tristes figuras que tem feito, como foi o caso das inocentes crianças de sodoma que o fogo divino calcinou."José Saramago, em "Caim", 2009 (Imagem: óleo sobre tela de Ticiano "Caim e Abel", séc. XVI)
24 de maio de 2010
O desassossego de Jesus em Pessoa
Inês Pedrosa, em "Expresso/Única - No altar dos livros", de 22 de Maio de 2010
"O guardador de rebanhos VIII
Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
(...)
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
(...)
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
(...)
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?"
Alberto Caeiro, 1914 (poema completo aqui, imagem daqui)
22 de maio de 2010
Hands
Já tem cerca de doze anos, mas continua a ser uma bela música. Ouvi-a ontem no final de um episódio de "Casos Arquivados" e lembrei-me de a procurar e partilhar por aqui.
(Desculpem a publicidade - cliquem no X para a interromper, mas esta versão é a que tinha melhor qualidade)
10 de maio de 2010
Depois do silêncio
"Depois do silêncio, aquilo que mais aproximadamente exprime o inexprimível é a música."
Aldous Huxley
Aldous Huxley
2 de maio de 2010
Poema à mãe
"No mais fundo de ti,eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido no fundo dos teus olhos.
Porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa:
esqueceste que as minhas pernas cresceram
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim
e deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves."
Eugénio de Andrade
(óleo sobre tela de Arlete Salgado - minha querida mãe, 2004)
26 de abril de 2010
O essencial é invisível para os olhos
"Vês lá adiante os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem nada. E é triste! Mas tu tens cabelos cor de oiro. Por isso, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso. Como o trigo é doirado, fará lembrar-me de ti. E hei-de amar o barulho do vento através do trigo...A raposa calou-se e olhou por muito tempo para o principezinho:
- Cativa-me, por favor, disse ela.
- Tenho muito gosto, respondeu o principezinho, mas falta-me tempo. Preciso de descobrir amigos e conhecer muitas coisas.
- Só se conhecem as coisas que se cativam, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para tomar conhecimento de nada. Compram coisas feitas aos mercadores. Mas como não existem mercadores de amigos, os homens não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me."
Antoine de Saint-Exupéry, em "O Principezinho" (4ª edição, tradução de Alice Gomes)
22 de abril de 2010
16 de abril de 2010
1340340 Plutão
Durante a maior parte da minha vida, Plutão foi um planeta. Em 2006, foi despromovido a planeta anão, e foi-lhe atribuido o n.º 1340340 de planeta menor. Plutão leva 248 anos a dar a volta ao sol, e em 20 desses anos está mais perto do sol do que Neptuno. Agora é chamado "plutóide". Coisas da ciência! Mas o assunto aqui, não é ciência, mas antes arte, com esta música "Pluto" de Clare and The Reasons. Os agradecimentos a Cosimo por divulgar este grupo.
9 de abril de 2010
O peso da alma
Clarice Lispector
6 de abril de 2010
Para que servem 320 milhões de euros?
Servem, por exemplo, para deitar ao lixo sob a forma de medicamentos não usados, num ano, em Portugal! Pelo menos foi o que julgo ter ouvido nas notícias hoje na RTP!Para se fazer alguma coisa, é preciso vontade e acção, não basta mandar para o Diário da República uma Portaria 697/2009 sobre o fornecimento em unidose, e esperar que as farmácias e as farmacêuticas adiram... (sim, elas aderem já, de boa vontade...)
Claro que eles estão satisfeitos!
320.000.000 € para o lixo, num ano, só de medicamentos? Será que ouvi mal o número? Por favor, digam-me que foi engano!
4 de abril de 2010
Em Itália também se canta o Fado
Na parte final do filme Nine, quando Guido Contini declara que não há filme, ouve-se um lindo fado cantado por uma voz masculina em italiano (julgo); parecia-me uma canção antiga. Procurei na banda sonora do filme, mas... nada. Não consegui saber o nome ou o intérprete sequer. Na net, também não fui capaz de encontrar. Mas encontrei esta italiana, Irene Fargo, a cantar fado, em português.
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