4 de julho de 2010

Visita da Mafalda

A Mafalda, apesar de já ter 45 anos continua aquela eterna menina contestatária, preocupada com o destino do mundo, que pensa pela sua cabeça e que não gosta de sopa.
Hoje veio visitar o Armazém de Pedacinhos, que completa um ano, e como é uma querida de bom coração trouxe um bolinho de aniversário. E ainda por aqui deixou algumas das suas tiradas (ou tiras?). Obrigada, Mafalda !
Mas sobretudo, obrigada a todos aqueles que visitaram este espaço durante estes 365 dias (e não sei como, mas foram mais de 11 mil visitas ...) e àqueles que seguem o blogue. E um agradecimento muito especial aos que participam e deixam o seu comentário, pois na verdade, são esses que fizeram com que este armazém ainda não tenha ido à falência. MUITO OBRIGADA.

27 de junho de 2010

A Maior Flor do Mundo

"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?" José Saramago

Esta animação tem circulado muito pela internet, especialmente depois da partida de José Saramago. Já conhecia a versão com a narração em espanhol, agora a minha mãe descobriu a versão com narração em português. Aqui fica armazenada esta linda curta-metragem de animação baseada no livro «A Maior Flor do Mundo», de José Saramago. De Juan Pablo Etcheverry, com música de Emilio Aragón e narração de José Saramago. Produção de Continental Animación.

A Maior Flor do Mundo from Fundação Jose Saramago on Vimeo.

20 de junho de 2010

Rapsódia de Marrretas

Andei a pesquisar pela página dos Webby Awards e encontrei esta versão da Bohemian Rhapsody dos Queen, interpretada pelos Marretas. Que saudades duns e doutros! Boa semana.

18 de junho de 2010

Porque terá chegado a grande sombra

"Cai a chuva, o vento desmancha as árvores desfolhadas, e dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado. Traz um cajado ao ombro, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente caminham os porcos, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo se esse longe seja apenas a parede que tem na frente. A sua cara parece ter sido talhada a enxó, fixa mas expressiva, e os olhos, pequenos e agudos, brilham de vez em quando como se alguma coisa em que estivesse a pensar tivesse sido definitivamente compreendida. É um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filósofo, um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria que não pode ser nunca. Recordo aquelas noites mornas de Verão, quando dormíamos debaixo da figueira grande, ouço-o falar da vida que teve, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia, do gado que criava, das histórias e lendas da sua infância distante. Adormecíamos tarde, bem enrolados nas mantas por causa do fresco da madrugada. Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?"

José Saramago, em "As Pequenas Memórias", 2006, Editora Caminho

10 de junho de 2010

Cio da Terra

Hoje, a Terra não está com o cio. Está é doente, cheia de febre, lutando contra uma infecção causada por um agente altamente infestante, que não é bactéria nem vírus, mas que se comporta como tal.

5 de junho de 2010

Hoje olho-te, mar

"Os meus passos de criança não deixavam pegadas,
a tua mão de areia e espuma
atraía-me para o teu seio
e eu partia numa braçada confiante
em direcção ao azul dos gritos das gaivotas,
esse azul reluzente ao nível dos olhos
que me chamava sempre mais longe
em busca da vaga que seria enfim minha.
Hoje olho-te, mar,
e lembro-me das lágrimas vertidas,
do sal amargo do regresso,
da tua cor cambiante
que me traz o esquecimento
e eu permaneço lá, apaziguada e feliz,
a olhar a maré do presente
que já não é para mim o chamamento
da tua mortal imensidão."

Isabel Meyrelles, Maio 1997, em "Isabel Meyrelles, Poesia" , Quasi Edições, 2004

31 de maio de 2010

Está visto que a guerra é um negócio

"Está visto que a guerra é um negócio de primeira ordem, talvez seja mesmo o melhor de todos a julgar pela facilidade com que se adquirem do pé para a mão milhares e milhares de bois, ovelhas, burros e mulheres solteiras, a este senhor terá de chamar-se um dia deus dos exércitos, não lhe vejo outra utilidade, pensou caim, e não se enganava. É bem possível que o pacto de aliança que alguns afirmam existir entre deus e os homens não tenha mais que dois artigos, a saber, tu serves-nos a nós, vocês servem-me a mim. Do que não há dúvida é que as coisas estão muito mudadas. Antigamente o senhor aparecia à gente em pessoa, por assim dizer em carne e osso, via-se que sentia mesmo certa satisfação em exibir-se ao mundo, que o digam adão e eva, que da sua presença se beneficiaram, que o diga também caim, embora em má ocasião, pois as circunstâncias, referimo-nos, claro está, ao assassínio de abel, não eram as mais adequadas para especiais demonstrações de contentamento. Agora, o senhor esconde-se em colunas de fumo, como se não quisesse que o vissem. Em nossa opinião de simples observadores dos acontecimentos, andará envergonhado por algumas tristes figuras que tem feito, como foi o caso das inocentes crianças de sodoma que o fogo divino calcinou."

José Saramago, em "Caim", 2009 (Imagem: óleo sobre tela de Ticiano "Caim e Abel", séc. XVI)

24 de maio de 2010

O desassossego de Jesus em Pessoa

"Só o desassossego salva, aprendi-o com Cristo antes de o ter reaprendido com Pessoa."

Inês Pedrosa, em "Expresso/Única - No altar dos livros", de 22 de Maio de 2010


"O guardador de rebanhos VIII

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
(...)
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
(...)
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
(...)
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?"

Alberto Caeiro, 1914 (poema completo aqui, imagem daqui)

22 de maio de 2010

Hands

Já tem cerca de doze anos, mas continua a ser uma bela música. Ouvi-a ontem no final de um episódio de "Casos Arquivados" e lembrei-me de a procurar e partilhar por aqui.



(Desculpem a publicidade - cliquem no X para a interromper, mas esta versão é a que tinha melhor qualidade)

10 de maio de 2010

Depois do silêncio

"Depois do silêncio, aquilo que mais aproximadamente exprime o inexprimível é a música."

Aldous Huxley


2 de maio de 2010

Poema à mãe

"No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido no fundo dos teus olhos.

Porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa:
esqueceste que as minhas pernas cresceram
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.

Eu saí da moldura
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim
e deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves."

Eugénio de Andrade

(óleo sobre tela de Arlete Salgado - minha querida mãe, 2004)