26 de setembro de 2010

Esvanecimento

"E Navaia se iluminou de infâncias. Me apertou a mão e, juntos, fomos entrando dentro de nossas próprias sombras. No último esfumar de meu corpo, ainda notei que os outros velhos desciam connosco, rumando pelas profundezas da frangipaneira. E ouvi a voz suavíssima de Ernestina, embalando um longínquo menino. Do lado de lá, ficavam Marta Gimo e Izidine Naíta. Sua imagem se esvanecia, deles restando a dupla cintura de um cristal, breve cintilação de madrugada.
Aos poucos, vou perdendo a língua dos homens, tomado pelo sotaque do chão. Na luminosa varanda deixo meu último sonho, a árvore do frangipani. Vou ficando do som das pedras. Me deito mais antigo que a terra. Daqui em diante, vou dormir mais quieto que a morte."

Mia Couto, em "A Varanda do Frangipani" (imagem daqui, esvanecida)

6 comentários:

manuel marques disse...

Grato pela dica.

Beijo.

Eduardo Miguel Pereira disse...

Curioso, Benjamina !
Ando precisamente nesta altura a desbravar a obra de Mia Couto e estou a adorar.
Demorei a entender o estilo e a captar-lhe o ritmo, mas despois de tudo isto assimilado, tenho-me deliciado.

"Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra", tornou-se um dos livros que me deixou marca. Lindíssimo.

Benjamina disse...

Manuel
Obrigada pela visita :)
Um abraço

Benjamina disse...

Olá Eduardo
Este é o segundo livro de Mia Couto que li, e adorei. Uma obra poética em prosa. O primeiro que li (O outro pé da serra) também gostei, mas gostei muito mais deste.
Este extracto é o final do livro, mas tem muitas passagens lindíssimas.
Obrigada pela dica, será o próximo a ler do Mia Couto.
Um abraço

TERESA SANTOS disse...

Olá Benjamina,

Tenho quase toda a obra de Mia Couto. Em cada livro encontro sempre mais um motivo de deslumbramento. A magia africana está muito, muito presente.

Beijinho.

Benjamina disse...

Olá Teresa
É mesmo isso - a magia de África!
Obrigada, beijinho e bom fim de semana :)