Armazém de pedacinhos
14 de abril de 2020
1 de fevereiro de 2020
Amar
«Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.»
Carlos Drummond de Andrade
20 de janeiro de 2020
É tarde
nenhum sono
repõe o que não vivi
agora
resta um único desfecho:
de novo acordar por dentro
e acordar sempre
até que volte a ser cedo.»
Mia Couto
Fonte: Facebook de Mia Couto
12 de janeiro de 2020
15 de maio de 2019
2 de janeiro de 2018
Tenho pena e não respondo
«Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.
Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros — cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.
Ah, deixem-me sossegar
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?»
Fernando Pessoa
26-8-1930
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 50.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.
Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros — cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.
Ah, deixem-me sossegar
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?»
Fernando Pessoa
26-8-1930
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 50.
12 de dezembro de 2017
Quando o amor chega
«Sarah Kay e Phil Kaye do Projeto VOICE interpretam "When Love Arrives", um poema da sua autoria sobre as expectativas e as realidades do amor. Este poema fez parte de sua atuação no Malthouse Theatre em Melbourne, Austrália, organizado pela revista Dumbo Feather (2012), e o vídeo original já teve mais de 3,8 milhões de visualizações.
O Projeto VOICE (Vocal Outreach Into Creative Expression) é um movimento que celebra e inspira a auto-expressão dos jovens através da poesia falada. Concebido em 2004, este projeto encoraja os jovens a envolverem-se com o mundo ao seu redor e usam a poesia falada como um instrumento através do qual elas possam explorar e compreender melhor sua cultura, sua sociedade e, finalmente, elas mesmas. »
Fonte: tradução do texto do vídeo original
Com os agradecimentos e os parabéns à amiga Ana Isabel Ferreira, que me deu esta linda prenda no seu dia de aniversário, que tive de partilhar :)
26 de março de 2017
E há poetas que são artistas
«E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...
Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre boa e é sempre a mesma.
Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa.
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos,
E não termos sonhos no nosso sono.»
Alberto Caeiro , O Guardador de Rebanhos, XXXVI, em "Fernando Pessoa, Poemas escolhidos de Alberto Caeiro", Assírio & Alvim, edição 2013
25 de março de 2017
Olá estranho
Hi Stranger é uma animação de Kirsten Lepore, que nos baixa o ritmo frenético.
Estranha? Talvez. Eu gostei!!
Hi Stranger from Kirsten Lepore on Vimeo.
Estranha? Talvez. Eu gostei!!
Hi Stranger from Kirsten Lepore on Vimeo.
26 de setembro de 2016
Quando voltar a Primavera
"Quando vier a Primavera", de Alberto Caeiro, é um daqueles poemas que, simplesmente, adoro, pela genialidade, desprendimento, simplicidade e amor à natureza! Aqui, muito bem dito, por Pedro Lamares. Apreciem!
17 de agosto de 2016
A Poesia é uma Arma Carregada de Futuro
A POESIA É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO
GABRIEL CELAYA (1911-1991)
«Quando já nada se espera particularmente exaltante
mas palpitamos e seguimos aquém da consciência,
feramente existindo, cegamente afirmando,
como um pulso que golpeia as trevas,
quando miramos de frente
os vertiginosos olhos claros da morte,
dizemos as verdades;
as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades
Dizemos os poemas
que enchem os pulmões dos que, asfixiados,
pedem ser, pedem ritmo,
pedem lei para aquilo que sentem em excesso,
com a velocidade do instinto,
com o raio do prodígio,
como mágica evidência, o real que se transforma
no idêntico a si mesmo.
Poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que exigimos treze vezes por minuto,
para ser e enquanto somos dar o sim que glorifica.
Porque vivemos aos tropeços, porque apenas nos deixam
dizer que somos quem somos,
os cânticos não podem ser, sem pecado, um adorno.
Estamos chegando ao fundo.
Maldita a poesia concebida como um luxo
cultural para os neutros
que, lavando-se as mãos, se desentendem e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.
Faço minhas as faltas. Sinto em mim os que sofrem
e canto respirando.
Canto, e canto e cantando para lá de minhas penas,
me amplio.
Quisera dar-lhes vida, provocar novos atos,
e calculo por isso com a técnica que posso.
Me sinto um engenheiro do verso e um operário
que forja com outros a Espanha em seus alicerces.
Assim é minha poesia: poesia-ferramenta
ao mesmo tempo pulsar do unânime e cego.
Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que aponto o teu peito.
Não é uma poesia gota a gota pensada.
Não é um belo produto. Não é um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que expande o que dentro levamos.
São palavras que repetimos sentindo
como nossas, e voam. São mais que o pensado.
São gritos no céu, e, na terra, são atos.»
Gabriel Celaya, 1955, Cantos Iberos
(tradução de António Miranda)
Fonte e versão original em espanhol: http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/espanha/gabriel_celaya.html
.
GABRIEL CELAYA (1911-1991)
| Biblioteca em Móron, Cuba, 2016 |
mas palpitamos e seguimos aquém da consciência,
feramente existindo, cegamente afirmando,
como um pulso que golpeia as trevas,
quando miramos de frente
os vertiginosos olhos claros da morte,
dizemos as verdades;
as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades
Dizemos os poemas
que enchem os pulmões dos que, asfixiados,
pedem ser, pedem ritmo,
pedem lei para aquilo que sentem em excesso,
com a velocidade do instinto,
com o raio do prodígio,
como mágica evidência, o real que se transforma
no idêntico a si mesmo.
Poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que exigimos treze vezes por minuto,
para ser e enquanto somos dar o sim que glorifica.
Porque vivemos aos tropeços, porque apenas nos deixam
dizer que somos quem somos,
os cânticos não podem ser, sem pecado, um adorno.
Estamos chegando ao fundo.
Maldita a poesia concebida como um luxo
cultural para os neutros
que, lavando-se as mãos, se desentendem e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.
Faço minhas as faltas. Sinto em mim os que sofrem
e canto respirando.
Canto, e canto e cantando para lá de minhas penas,
me amplio.
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| Gabriel Celaya, foto de http://www.gabrielcelaya.com/ |
Quisera dar-lhes vida, provocar novos atos,
e calculo por isso com a técnica que posso.
Me sinto um engenheiro do verso e um operário
que forja com outros a Espanha em seus alicerces.
Assim é minha poesia: poesia-ferramenta
ao mesmo tempo pulsar do unânime e cego.
Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que aponto o teu peito.
Não é uma poesia gota a gota pensada.
Não é um belo produto. Não é um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que expande o que dentro levamos.
São palavras que repetimos sentindo
como nossas, e voam. São mais que o pensado.
São gritos no céu, e, na terra, são atos.»
Gabriel Celaya, 1955, Cantos Iberos
(tradução de António Miranda)
Fonte e versão original em espanhol: http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/espanha/gabriel_celaya.html
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26 de fevereiro de 2016
Loving Vincent
O novo trailer do filme Loving Vincent (de Dorota Kobiela e Hugh Welchman, Breakthru Productions, Polónia), deixa-nos fascinados com os trabalhos de Van Gogh mais vivos que nunca.
![]() |
| Imagem de http://www.lovingvincent.com/ |
«"Loving Vincent" é uma investigação sobre a vida e controversa morte de Vincent van Gogh, um dos pintores mais amados do mundo, contada pelass suas pinturas e pelos personagens que as habitam. A intriga desenrola-se através de entrevistas com os personagens mais próximos de Vincent e através de reconstruções dramáticas dos acontecimentos que antecederam a sua morte.
"Loving Vincent" apresenta mais de cento e vinte das melhores pinturas de Vincent Van Gogh. A trama, construída a partir das 800 cartas escritas pelo próprio pintor, levam-nos a pessoas e eventos significativos no tempo que antecedeu a sua morte inesperada.
"Loving Vincent" será a primeira longa-metragem do mundo de animação pintada, produzida pelas empresas vencedoras de Óscares Breakthru Films e Trademark Films. Cada quadro do filme Vincent Amar é uma pintura a óleo sobre tela, usando a mesma técnica em que o próprio Vincent pintou.»
Fonte: tradução de http://www.lovingvincent.com/?id=about
(Ver aqui trailer anterior)
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