31 de dezembro de 2017

Tenho pena e não respondo

«Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros — cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?»

Fernando Pessoa
26-8-1930

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 50.


Apolo, de Nadir Afonso (acrílico sobre tela, 2007),
fotografia captada no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, em Chaves,
dez 2017

12 de dezembro de 2017

Quando o amor chega

«Sarah Kay e Phil Kaye do Projeto VOICE interpretam "When Love Arrives", um poema da sua autoria sobre as expectativas e as realidades do amor. Este poema fez parte de sua atuação no Malthouse Theatre em Melbourne, Austrália, organizado pela revista Dumbo Feather (2012), e o vídeo original já teve mais de 3,8 milhões de visualizações.

Projeto VOICE (Vocal Outreach Into Creative Expression) é um movimento que celebra e inspira a auto-expressão dos jovens através da poesia falada. Concebido em 2004, este projeto encoraja os jovens a envolverem-se com o mundo ao seu redor e usam a poesia falada como um instrumento através do qual elas possam explorar e compreender melhor sua cultura, sua sociedade e, finalmente, elas mesmas. »
Fonte: tradução do texto do vídeo original

Com os agradecimentos e os parabéns à amiga Ana Isabel Ferreira, que me deu esta linda prenda no seu dia de aniversário, que tive de partilhar :)

26 de março de 2017

E há poetas que são artistas


«E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...

Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre boa e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa.
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos,
E não termos sonhos no nosso sono.»

Alberto Caeiro , O Guardador de Rebanhos, XXXVI, em "Fernando Pessoa, Poemas escolhidos de Alberto Caeiro", Assírio & Alvim, edição 2013

26 de setembro de 2016

Quando voltar a Primavera

"Quando vier a Primavera", de Alberto Caeiro, é um daqueles poemas que, simplesmente, adoro, pela genialidade, desprendimento, simplicidade e amor à natureza!   Aqui, muito bem dito, por Pedro Lamares. Apreciem!

17 de agosto de 2016

A Poesia é uma Arma Carregada de Futuro

A POESIA É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO
GABRIEL CELAYA (1911-1991)

Biblioteca em Móron, Cuba, 2016
«Quando já nada se espera particularmente exaltante
mas palpitamos e seguimos aquém da consciência,
feramente existindo, cegamente afirmando,
como um pulso que golpeia as trevas,

quando miramos de frente
os vertiginosos olhos claros da morte,
dizemos as verdades;
as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades

Dizemos os poemas
que enchem os pulmões dos que, asfixiados,
pedem ser, pedem ritmo,
pedem lei para aquilo que sentem em excesso,

com a velocidade do instinto,
com o raio do prodígio,
como mágica evidência, o real que se transforma
no idêntico a si mesmo.

Poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que exigimos treze vezes por minuto,
para ser e enquanto somos dar o sim que glorifica.

Porque vivemos aos tropeços, porque apenas nos deixam
dizer que somos quem somos,
os cânticos não podem ser, sem pecado, um adorno.
Estamos chegando ao fundo.

Maldita a poesia concebida como um luxo
cultural para os neutros
que, lavando-se as mãos, se desentendem e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.

Faço minhas as faltas. Sinto em mim os que sofrem
e canto respirando.
Canto, e canto e cantando para lá de minhas penas,
me amplio.
Gabriel Celaya, foto de http://www.gabrielcelaya.com/

Quisera dar-lhes vida, provocar novos atos,
e calculo por isso com a técnica que posso.
Me sinto um engenheiro do verso e um operário
que forja com outros a Espanha em seus alicerces.
Assim é minha poesia: poesia-ferramenta
ao mesmo tempo pulsar do unânime e cego.
Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que aponto o teu peito.

Não é uma poesia gota a gota pensada.
Não é um belo produto. Não é um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que expande o que dentro levamos.

São palavras que repetimos sentindo
como nossas, e voam. São mais que o pensado.
São gritos no céu, e, na terra, são atos.»

Gabriel  Celaya, 1955, Cantos Iberos
(tradução de António Miranda)

Fonte e versão original em espanhol:  http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/espanha/gabriel_celaya.html



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26 de fevereiro de 2016

Loving Vincent

O novo trailer do filme Loving Vincent (de Dorota Kobiela e Hugh Welchman, Breakthru Productions, Polónia), deixa-nos fascinados com os trabalhos de Van Gogh mais vivos que nunca.

Imagem de http://www.lovingvincent.com/
«"Loving Vincent" é uma investigação sobre a vida e controversa morte de Vincent van Gogh, um dos pintores mais amados do mundo, contada pelass suas pinturas e pelos personagens que as habitam. A intriga desenrola-se através de entrevistas com os personagens mais próximos de Vincent e através de reconstruções dramáticas dos acontecimentos que antecederam a sua morte.

"Loving Vincent" apresenta mais de cento e vinte das melhores pinturas de Vincent Van Gogh. A trama, construída a partir das 800 cartas escritas pelo próprio pintor, levam-nos a pessoas e eventos significativos no tempo que antecedeu a sua morte inesperada.

"Loving Vincent" será a primeira longa-metragem do mundo de animação pintada, produzida pelas empresas vencedoras de Óscares Breakthru Films e Trademark Films. Cada quadro do filme Vincent Amar é uma pintura a óleo sobre tela, usando a mesma técnica em que o próprio Vincent pintou.»




(Ver aqui trailer anterior)

20 de março de 2015

Quando vier a Primavera

«Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.»

Alberto Caeiro (1915)

15 de março de 2015

O Tejo e o rio da minha aldeia

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."

Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos - Poema XX"

14 de dezembro de 2014