4 de agosto de 2009

A gente morre às vezes

"Viver tem dessas coisas: de vez em quando se fica a zero. E tudo isso é por enquanto. Enquanto se vive.
(...)
São cinco para as sete. Se me descuido, morro. É muito fácil. É uma questão do relógio parar. Faltam três minutos para as sete. Ligo ou não ligo a televisão? Mas é que é tão chato ver televisão sozinha.
Mas finalmente resolvi e vou ligar a televisão. A gente morre às vezes."

Clarice Lispector, em "Por Enquanto", Conto

7 comentários:

Ferreira-Pinto disse...

Mais vale que ligues a televisão; mesma sózinha é sempre um sinal que nos liga aparentemente à vida. A uma estranha forma de vida, mas ainda assim vida.

Benjamina disse...

Ferreira-Pinto, também acho. E a Clarice Lispector também assim acabou por achar, neste lindo conto, de que extraí dois bocadinhos

Fada do bosque disse...

Não convém pensar que se morre aos pedacitos, como diz este triste texto... nada do meu género.
Mas se realmente o pensas e a TV te faz esquecer, força no botão e que a vida te saia pelo ecran.
Tristeza é que não! :)

Beijinho :)

Benjamina disse...

Coloquei aqui este pedacinho de um conto da Clarice Lispector, brasileira nascida na Ucrânia (1920-1977), apenas porque achei linda a forma como exprime a solidão.

Fada do bosque disse...

Eu sei... mas é tão triste... :(

Pó-de-lótus disse...

Vou procurar este conto. Por vezes temos de alterar o nosso caminho e começar "do zero" uma nova etapa. "A gente morre às vezes"...mas é o que nos permite renascer.
Obrigada pelo seu comentário.

Benjamina disse...

Pó-de-lótus
Como a fénix... renascer das cinzas - por vezes é preciso mesmo.
Este conto "Por Enquanto" encontrei-o no livro "Contos de Clarice Lispector", editora Relógio d'Água, 2006, no capítulo "A Via Crucis do Corpo".
Obrigada pela visita.